LGBTQIA+: Com mais de 10 anos de carreira, Má Rodrigues conta um pouco de sua trajetória

Má Rodrigues participou da 1º Edição da #semanaPRIDE da DJane Mag Brasil, e nos contou um pouco sobre sua representatividade dentro da cena LGBTQIA+ brasileira, além de explicar a origem e a luta por traz deste título de DIVA DO TAGARAGADA.

Além de toda a sua representatividade, tanto por fazer parte da comunidade LGBTQIA+, quanto por defender uma vertente mais “pesada” no tribal house, ela nos deu uma entrevista exclusiva para contar um pouco mais de sua trajetória nesses mais de 10 anos de carreira como DJ Profissional.

Confira agora.

Você iniciou sua carreira profissional em 2009, gostaríamos de saber como foi o seu contato com a música durante a sua infância e adolescência?

Pode se dizer que além de amar música eu já amava uma percussão quando criança, com cerca de 12 anos eu entrei pra fanfarra da minha cidade através da minha escola, e em seguida para a banda marcial, eu tocava caixa, e já de início fiquei como a principal da fanfarra responsável por “puxar” o restante, aprendi tudo de ouvido, somente depois na banda marcial é que fui começar a estudar música na teoria, acredito que isso possa sim ter influenciado de certa maneira essa minha paixão por um som mais percussionado e de batidas fortes. Já na adolescência não fui muito ligada a música, tinha outros sonhos, nem pensava em ir pra balada, somente no meu aniversário de 18 anos é que fui pra uma club pela primeira vez, mas bastou pra eu ficar encantada pelo poder que o DJ tem de mexer com as pessoas que estão na pista, eu ficava observando o DJ por horas e com o passar dos meses o desejo de aprender foi crescendo dentro de mim cada vez mais. Em janeiro de 2009 iniciei meu curso básico de DJ, na DJ BAN, em São Paulo, em fevereiro me apresentei pela primeira vez, e em maio de 2009 consegui minha primeira residência nesse club que eu já frequentava, meu contato com o equipamento após o curso foi rápido, sempre foi diante da pista cheia desse club e eu considero que isso foi a verdadeira grande escola pra mim.

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“…acredito que isso veio pra nos dar uma lição como seres humanos, nos obrigou a parar e olhar a nossa volta, e perceber que seja pobre ou rico, somos todos iguais.” Má Rodrigues

O seu sucesso começou na região do Vale do Paraíba, uma das regiões de maior importância para o nosso país, mas que não tem uma vida noturna com tanto destaque assim. Conte pra gente um pouco sobre essa época onde você representou a cena feminina em uma região fora das grandes capitais da música.

Nessa época a profissão DJ ainda era bem mais seletiva e fechada, não existiam tantos DJs na cena e ainda nenhuma mulher em evidência, mas nunca senti nenhum tipo de preconceito, pelo contrário, o público gay aceita muito bem as mulheres em uma posição a ser admirada, pra mim foi e é muito gratificante ter começado nessa época, batalhado, crescido e ter sido uma das primeiras mulheres da cena gay a ganhar reconhecimento nacional, ainda mais defendendo um som considerado mais “pesado”.

Em 2012 você foi considerada a DJ Revelação no Concurso de DJs da Tic Tac Party. Fale sobre a sua relação com este selo que hoje tem você como uma das residentes.

Nessa época eu morria de medo de me jogar, como uma DJ do interior que ainda nunca tinha se apresentado no berço da cena eletrônica que é a nossa capital, eu tinha bastante receio de participar do concurso, mas foi uma experiência extremamente fundamental na minha carreira, abriu as portas pro meu trabalho ser conhecido pelo público da capital e isso fez com que meu nome na época fosse bastante comentado, o que gerou aos poucos outros convites para me apresentar também não só na capital, mas em outras cidades do interior mais distantes. Minha história com esse selo sempre foi muito forte, de 2012 a 2017 eu me apresentava como DJ convidada com cada vez mais frequência na festa, em quase todas as edições e sempre muito pedida e esperada pelo público, o que levou ao convite para residência em 2017 e sigo como residente até hoje sendo tratada com a mesma paixão pelo público, o que é incrível e muito especial pra mim.

Você participou da nossa 1ª Edição da Semana Pride no mês do orgulho LGBTQIA+, e é uma das residentes do Festival Hopi Pride que aconteceria justamente neste mês. Fale um pouco sobre sua residência no festival Hopi Pride.

O Hopi Pride é sem dúvidas uma das minhas grandes paixões profissionais.O evento teve início em 2017, já foram 4 edições oficiais, e também tivemos uma edição bem menor Pré-Parada em 2018. Quando recebi o convite para tocar no Hopi Hari sem saber ao certo ainda como seria o evento já quase morri de felicidade e excitação, afinal de contas poder tocar num parque de diversões tão incrível que fez parte da minha adolescência parecia um sonho. Minha participação lá sempre foi muito especial, fui abraçada pelo público e pelo parque de uma maneira incrível desde a primeira edição, essa aceitação e repercussão tão positiva me levou a ser convidada para todas as outras edições, e acho que na terceira edição já tinha recebido o convite para ser residente do evento, o que na verdade eu já me sentia desde o início tamanha era a sensação de estar em casa naquele lugar. O evento cresceu muito, tenho muito orgulho de levar o título de residente de um evento tão mágico como esse, e não posso deixar de agradecer especialmente ao Gustavo Ruiz, o produtor do Pride que me fez o convite assim que o evento começou a ser elaborado, sempre me recebeu extremamente bem e me deu oportunidade de ouvi-lo e poder opinar em diversos aspectos durante a elaboração do evento em todas as edições e confiou no meu trabalho a ponto de me convidar para ser residente, confiança e carinho que nos levou a nos tornar amigos, tenho grande admiração e gratidão pela pessoa e profissionalismo dele.

Você já se apresentou muitas vezes em gigs no Chile. Fale sobre essa experiência de tocar fora do seu país e como é sua relação com os fãs chilenos.

Ah, jamais esquecerei do dia em que recebi o primeiro convite para me apresentar em outro país, eu nem sonhava com isso ainda, lembro que foi em 2017, após me apresentar em diversos eventos em SP na semana da parada, vários turistas chilenos me viram tocar e fizeram vídeos meus tocando e elogiando nas redes sociais, o que despertou no Victor Uribe, pessoa a quem também sou muito grata, na época produtor do maior Club Chileno, o Divino, a vontade de me levar pra lá, e o convite deu certo exatamente para a data do meu aniversário daquele ano, foi mágico, nunca tremi tanto, o público vibrava na minha apresentação como se já me conhecesse há anos. Fui tão bem aceita que já voltei pra lá diversas vezes, costumo ir 2x por ano e fiz muitos amigos lá, sou sempre recebida como sendo da família deles, é incrível. A energia dos chilenos é muito parecida com a dos brasileiros, são muito fervidos.

“…tenho muito orgulho em ter construído meu nome fazendo o que eu amo e minha alma realmente representa, mesmo que não seja o que me trará mais dinheiro.” Má Rodrigues.

A sua ligação com seus fãs é muito forte! Na sua opinião, como seus fãs ajudam você a ganhar mais espaço dentro da cena?

Sou verdadeiramente muito grata ao público, desde o início da minha carreira sempre fui e continuo sendo muito próxima das pessoas que curtem o meu trabalho, tanto que, pessoalmente nas festas, procuro estar sempre na pista abraçando e tirando fotos com todo mundo, quando virtualmente, nas redes sociais faço questão de sempre responde-los, tirar as dúvidas, agradecer pelo carinho e suporte que me dão, repostar os stories em que me marcam. Faço sempre questão de manter contato de todas as maneiras possíveis e ser recíproca ao carinho que recebo. Acho que nós artistas, seja do gênero que for, devemos muito ao público que prestigia nosso trabalho.
Tem 6 pessoa com tatuagens do meu nome, isso é surreal, uma grande responsabilidade. Ao meu ver você pode ter o talento que for, se não for recíproco, grato e acessível com o seu público sua carreira não deve ser muito longa, e mesmo que seja longa ela não será especial, não tem nada mais gratificante do que receber esse reconhecimento e amor que o público nos dá, é o que faz tudo ter sentido.Enfim, tudo que eu puder fazer pra que eles sintam que sou muito grata, eu faço e sempre farei, pois além da minha dedicação e paixão pelo que eu faço, é claro, tenho total consciência que o sucesso dos meus 11 anos de carreira se deve ao público que me dá reconhecimento.

O Tribal ainda é uma vertente muito desvalorizada pela indústria da música. Como é pra você ser uma mulher DJ que super representa o gênero Tribal brasileiro?

O tribal realmente é bastante desvalorizado no que diz respeito a reconhecimento mundial e financeiro no meio musical eletrônico, mas assim como em quase todos os gêneros, tem seus pontos fracos e fortes, foi a cena com a qual eu me identifiquei desde o início, lembro que nos meus primeiros 2 anos de carreira tudo andava muito difícil e pensei em desistir, foi quando recebi convite para começar a trabalhar na cena hétero (tech house, deep house etc) onde a imagem feminina costuma ser valorizada, por um breve momento comecei a pensar nessa possibilidade mas acabei não tendo coragem, meu coração sempre falou mais alto e não me arrependo nada em ter seguido minha intuição, tenho muito orgulho em ter construído meu nome fazendo o que eu amo e minha alma realmente representa, mesmo que não seja o que me trará mais dinheiro.

Estamos no meio de uma pandemia, e por isso gostaríamos de saber o que mais impactou na sua vida profissional?

O que mais impactou sem dúvida foi a vida financeira, pois já têm uns 7 anos que vivo apenas da minha carreira, essa pandemia pegou todo mundo de repente, trabalhei normalmente no fim de semana dos dias 12 a 14 de março e de repente no final de semana seguinte já estava tudo fechado, ninguém esperava por isso, então todas as contas e despesas continuam batendo na nossa porta, é bem complicado lidar também com as emoções, eu tinha uma vida bastante agitada, com a agenda cheia, sempre viajando, vendo gente, abraçando e beijando as pessoas nas festas, trocando energia, fazendo o que eu mais amo na vida, o que verdadeiramente me traz alegria, o que sinto que nasci pra fazer, e do nada fui privada disso, a cabeça fica uma montanha russa, dias de altos e baixos, mas tenho procurado lidar bem com isso, e evoluir como pessoa, cuidar de mim e das pessoas que posso ajudar mesmo que não financeiramente no momento, porque acredito que isso veio pra nos dar uma lição como seres humanos, nos obrigou a parar e olhar a nossa volta, e perceber que seja pobre ou rico, somos todos iguais.

Tudo indica que a indústria das festas será a última a ser liberada para funcionamento. Levando em consideração que podemos voltar a ter festas só no próximo ano, fale pra gente quais os seus planos para manter-se em evidência nos próximos meses!

Acredito que mesmo na quarentena temos que oferecer conteúdo e nos manter conectados com o nosso público alimentando o nosso trabalho, as lives tem sido um ótimo recurso porém acho que tem que ser feitas com moderação pra não cansar o público. Fiz apenas 3 até agora, procuro fazer apenas 1 por mês, sendo a última em parceria com o Hopi Hari que foi transmitida diretamente do parque com uma estrutura super bacana, foi bem legal. Esse mês também lancei um SET novo pq os meus sets disponibilizados no soundcloud sempre foram meu maior e melhor meio de divulgar meu trabalho e me conectar a distância com o público, tenho um alcance sempre muito bom em todo os sets.Quando tudo voltar quero lançar um novo set bem bacana de músicas inéditas dando boas vindas ao nosso retorno e preparar todo um novo material visual, fotos, backdrop digital, e material promocional pra elaborar algumas promoções pros meus fãs mais próximos e engajados entre outras coisas a serem lançadas futuramente.

Muitos DJs da cena estão passando por grandes dificuldades por dependerem das festas para pagar suas contas e até sobreviverem. Como que o público é os contratantes podem ajudar nestas situações?

Eu sou totalmente contra festas clandestinas no momento que estamos vivendo, recebi convites pra festas particulares e recusei e continuarei recusando até que tudo melhor de verdade, eu mesma vivo apenas do meu trabalho como DJ, mas tenho contado com ajuda das pessoas próximas de mim pra poder privar minha saúde, até porque eu poderia também adoecer outras pessoas próximas se eu me arriscar, é uma situação muito séria, não podemos ser egoístas e prejudicar a saúde de outras pessoas.Acho que quase todo mundo está no mesmo barco no momento e passando por dificuldades financeiras, mas seria bacana se parte do público que tem condições contribuísse com os DJs que admira mesmo que com valores simbólicos, hoje o soundcloud mesmo disponibiliza pra gente esse recurso de link para “doação”. Aconteceu no começo da pandemia algo bem legal também, 2 contratantes diferentes que já haviam me contratado pros próximos meses, adiantaram esses cachês para todo o line up que já fora contratado, foi um gesto bem legal que sem dúvida ajudou muito a todos, mas entendo perfeitamente que a maioria dos produtores também ficaram numa situação bem difícil sem fazer festas e com as casas fechadas então fica impossível ajudar. Há 3 meses que não tenho renda nenhuma e nem temos previsão de voltar a ter, mas independente disso eu continuo oferecendo conteúdo pro meu público ao máximo que eu puder, porque sei o quanto a música faz bem e leva alegria pras pessoas que ouvem.

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Diego Aganetti, mineiro, vivendo em São Paulo, que chegou nos seus 30 anos de idade e teve diversas experiências nos grandes eventos da cena LGBTQIA+. Atualmente voltou para o mercado de produção de eventos, com sua nova marca SIGN.