União e revolução: conheça o coletivo goiano Selvática

Ocupar espaços. Esse é o mantra de mulheres artistas e produtoras que lutam diariamente contra todas as barreiras que as impedem de ter o devido reconhecimento de seus trabalhos no mundo. E quando falamos da cena eletrônica, será mesmo que todo aquele sentimento de união latente das pistas também está com força total fora delas? 

O apagamento das mulheres é histórico, e os efeitos ainda reverberam nos dias de hoje. Felizmente, graças a muitas mulheres que ousaram quebrar paradigmas antes de nós, hoje surgem muitas outras com a vontade de fazer a diferença e lutar por um mundo mais justo, onde mulheres têm ocupado seu devido lugar: o de protagonismo. 

E então chegamos a Goiânia. A cidade conhecida por ser a capital do sertanejo tem uma cultura alternativa forte e em constante evolução, com a música eletrônica sendo uma das principais cenas que exporta artistas para o Brasil e o exterior. 

Mas esse crescimento também expõe uma realidade latente: o não reconhecimento das artistas femininas. Do Funk ao Techno, elas enfrentam uma luta constante para terem seu espaço, mas nem sempre as oportunidades chegam como deveriam – e não é por falta de talento. (Algumas delas você pode conferir neste artigo).

E é nesse cenário que surge Gabi Matos, que desde 2017 atua como DJ e Produtora de Eventos, com um currículo poderoso: produziu festas como o Bloco das Sereias, Pai D’Egua – com foco em divulgar a cultura paraense em Goiás -, e já tocou em vários eventos da cidade como o festival Bananada, Prosa Sonora, Festival da Primavera, Goiânia Noise, Grito Goiânia, Bloco Não é Não e Bloco do Mancha, trazendo para os decks todo seu estilo que passeia entre vários gêneros musicais – do guitarrada ao tecnofunk.

Gabi Matos é paraense mas goiana de história, e a mente por trás do coletivo Selvática.

Foi tendo essa vivência pelas casas e eventos da cidade que percebeu que há muitas barreiras quando se é mulher neste mercado. Desde a famosa “brotheragem” dos donos de pubs  – que dão mais credibilidade para amigos – assédio, desconfiança… a lista vai longe. E vendo que a situação provavelmente não mudaria sem alguma iniciativa, algo precisava ser feito: “ Tem espaço que não está nem aí para inclusão”, comenta Gabi.

Então, nasceu o Selvática, coletivo totalmente focado em aumentar a presença feminina na noite goiana em diferentes frentes. 


Idealizado por Gabi, o coletivo – que já tem 2 anos de existência e vários eventos realizados em casas conhecidas da cidade como Evoé, Shiva Alt-Bar e Ideologia 62 – surgiu não só da necessidade de aumentar a representatividade de artistas mulheres nas festas, como também da necessidade de ter espaços voltados para o compartilhamento de experiências e apoio mútuo entre si a fim de fortalecer suas atuações no mercado:

“Mais do que uma festa feita por mulheres, o Selvática é um projeto a longo prazo, um processo de unir as mulheres na construção musical da noite goiana, dar espaço para essas mulheres se desenvolverem e criarem suas carreiras nessa área.”

O coletivo também soma potências com outras integrantes que movimentam a cena na capital: Bárbara Novais, Eloah, Lara Vaz, Poli Ana, Pri Loyola e Yasmim Lauck. 

As mudanças que ansiamos, independente da área, sempre começam com a iniciativa de alguma mulher que abre caminhos para que outras sintam-se encorajadas a colocarem seus trabalhos à mostra, não importa quantos desafios apareçam pela frente.  A união de mulheres em prol de um objetivo inevitavelmente resulta em uma representatividade que pode ditar os rumos da cena se tivermos ainda mais consciência e iniciativas como essas, com mais e mais mulheres ampliando a rede de apoio entre si, não limitando-se apenas às suas regiões. Essa é a revolução.

“Tem que ter coragem”, diz Gabi, que desde o início da carreira se jogou no propósito, foi construindo seu caminho aos poucos e hoje começa a ver o coletivo crescendo e marcando presença nas noites de Goiânia, além de buscar, sempre, dar suporte às artistas enquanto amiga, DJ e Produtora Cultural, como também criando ações para troca de conhecimento e capacitação regada a muita música. Mais detalhes da nossa conversa você acompanha a seguir: 

Como você vê a importância da criação de espaços focados no protagonismo feminino no desenvolvimento das artistas e da cena de um modo geral?

Eu  acho que a importância vem principalmente de uma referência para várias mulheres verem que podemos ocupar esses espaços. A gente tem ocupado esses espaços, temos projetos neles que dão visibilidade pra gente. E além de uma referência, é importante também pra gente conseguir se apoiar; ter espaços, mesmo que virtuais, como um grupo de WhatsApp, um grupo de Facebook, seja uma página no Instagram ou lugares físicos que são as festas ou as nossas reuniões pra gente conseguir ter essas trocas, conseguir nos conhecer, pra gente conhecer o trabalho uma das outras e ter contatos.

Falando um pouco sobre invisibilização, quais barreiras você percebe que contribuem para a desvalorização das mulheres na música, tanto na discotecagem quanto na produção cultural?

Primeiro lugar com certeza os cachês. Financeiramente as mulheres são mais prejudicadas, elas muitas vezes não recebem para tocar porque tem aquela velha história “Ah, toca para mostrar seu trabalho”; As mulheres são muito assediadas na noite, isso é muito desconfortável, é muito chato lidar com isso, de contratante se achar no direito de cobrar você. 

Estava comentando esses dias de um contratante que me chamou para tocar em um evento numa ilha no Pará – fui para tocar no Réveillon – e na hora de acertar tudo o cara simplesmente perguntou o porquê de eu não ter ficado com ele! O meu contratante perguntando o porquê eu não quis ficar com ele, sabe? É bem chato esse tipo de situação..

A insegurança também que a gente sente de estar na noite; nós estamos mais vulneráveis a roubo; muitas mulheres andam sozinhas… enfim, são várias questões que vão levando a gente até a descrençar um pouco de trabalhar na noite. A falta de fé no nosso trabalho; quando você fala que é DJ as pessoas não confiam em você, que você consegue segurar o som, consegue lidar bem com o público, com pista de dança, levar as pessoas para um certo estilo ou ponto da festa que você quer. Enfim, é uma falta de fé mesmo no nosso trabalho.

O que é preciso ser feito para conquistarmos uma cena mais igualitária na sua opinião?

Bom, a gente tem que se manter firme e forte, né? Tem que fazer, tem que quebrar a cara, tem que se impor, tem que não aceitar as coisas.. eu, pelo menos, acredito nisso.

É a gente não aceitar pagamentos menores que os dos homens; não aceitar trabalhar mais com preço igual ou menor que o dos caras; a gente tem que meter a cara, fazer festa, tem que produzir, tem que errar, tem que aprender.

Tem que aprender a se empresariar também porque para todo mundo que toca ou faz alguma coisa nesse sentido com mais frequência, é porque a gente se impõe, se fala, faz as coisas. Tem que se apresentar, fazer as festas.

Eu lembro que no início eu não tinha festa para tocar porque as pessoas não me chamavam, aí eu simplesmente fazia as minhas festas e me botava pra tocar. Então você tem que ser ardilosa mesmo, criar seus meios, ir se impondo, fazendo e não deixar de tentar. 

Com a sua experiência em várias áreas do mercado, o que falta para que mais mulheres ocupem espaços de poder nesse meio? 

Acho que o que falta para as mulheres hoje em dia é conseguir dar mais as caras para poder pleitear o seu espaço, sabe? A gente não vai receber um convite dos caras que estão na noite, que estão tocando ou que estão fazendo as coisas, um convite tipo assim, alguém te estender a mão e falar ” vamos, eu te ajudo a subir”, não. É a gente que vai ter que conquistar esse espaço como sempre foi, é a gente chegando lá e tomando esse lugar. E só vamos conseguir isso falando, abrindo a boca, se vendendo, sabendo ser empresária de si mesma, sabendo negociar, sabendo conversar com as pessoas, ser uma pessoa do rolê, estar presente e antenada no que está acontecendo, enfim. 

Só vamos conseguir conquistar esse lugar por mérito nosso, e eu acho que falta isso, uma iniciativa maior das mulheres de entender que pra gente chegar lá vai ser pelos nossos meios e não esperando acontecer.   

E para fechar: quais conselhos você daria para as manas que querem iniciar no mercado?

Para as manas que querem entrar nesse mercado e viver de música, realmente tem que estar sempre aprendendo, a gente tem que ter uma pesquisa maior, tem que ser melhor. Sempre falo para as meninas não ficarem presas a só um estilo musical, tentar sempre agregar coisa nova porque você vai poder lidar com um público novo, lugares novos para tocar.

Não espere as pessoas te fazerem convites, vai atrás, procura, organiza o teu material profissional, vai atrás disso ao longo da sua carreira; vá se impondo, saiba fazer bons contatos, saiba trabalhar com as pessoas, saiba se vender no mercado, porque ninguém vai fazer por nós, é a gente fazendo por nós, não tem outro jeito de chegar em algum lugar sem a gente meter as caras e ir tentando, principalmente porque é uma profissão autônoma, quem trabalha com música é autônomo, então você tem que fazer pelos seus meios acontecer.  

Artista em construção que expressa a arte em palavras.

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