LGBTQIA+: Em entrevista,Van Müller revela detalhes da carreira

Pense em uma baiana de personalidade forte e grande talento! Agora imagine pegar essas duas características e transformá-las em música! É o que a DJane soteropolitana, Van Müller, faz de melhor!

The Original Brazilian Pool Party (RJ), maior pool party LGBTQIA+ do Brasil.

Van viaja de Norte ao Sul do país levando carisma, estilo e versatilidade, por estes motivos, ela tem sido cada vez mais reconhecida pelo público por apresentar seus sets sempre cheios de energia, com mashups de própria autoria, mesclando vocais clássicos e atuais em uma construção surpreendente.

Van Müller é uma das DJanes de maior destaque dentro da cena LGBTQIA+ brasileira. Ela começou sua carreira em Salvador, e hoje é a única mulher residente da maior pool party gay do Brasil, a The Original Brazilian Pool Party, do Rio de Janeiro, além de ter tocado em festivais grandiosos como o Festival de Verão de Salvador, a Hell & Heaven Festival e o Hopi Pride.

A DJane Mag Brasil conseguiu, com exclusividade, bater um papo com esta linda que acaba de completar seus 10 anos de carreira. Confira abaixo:

Você teve uma infância ou adolescência musical? Fale pra gente sobre essas épocas, e principalmente o que elas contribuíram para sua carreira como DJ.

Desconfio que estava na barriga da minha mãe usando fones de ouvido! Ahaha Minha vida seria muito chata se não tivesse a música como companhia e eu tive a sorte de nascer numa cidade com referências incríveis musicalmente, em diversos estilos e eu pude absorver muito dessas influências na minha musicalidade. Toquei violão e baixo por um tempo, até toquei numa banda de pagode, AHAHA, e durante toda a minha infância e adolescência tive um gosto muito eclético ouvindo: A-ha, Eurythimcs, Kid Abelha, Racionais, Bob Marley, Bad Religion, Daniela Mercury, Jorge Ben… Fui do Flash Back ao Axé Music.

Como começou a sua carreira como DJane?

Foi algo totalmente desprogramado! Sempre fui apaixonada por música eletrônica e na época, eu era colunista de um site voltado para a cena eletrônica local em Salvador (fazia entrevista com DJs nacionais, cobertura de festas e etc) e meu interesse em aprender a tocar partiu com o objetivo de entender o que os DJs faziam tecnicamente. O meu professor é um DJ de referência em Salvador e escrevíamos juntos no site, como ele tinha uma festa mensal na Off Club, extinto club da cidade, me intimou a estrear no selo e nunca mais parei! O que era hobby se tornou algo ainda mais sério e atualmente vivo apenas de música!

Van Müller em sua estreia, na extinta Off Club, em Salvador – BA.

O que você sente em relação a cena LGBTQIA+?

Diversa, dentro dela tem muitas tribos e isso é muito maravilhoso! O Brasil teve um boom gigante em relação a música eletrônica, ganhamos mais festivais ao longo do ano e os selos ganharam ainda mais força e muitas cidades entraram na rota do calendário de festas nacionais do público. As day e pool parties tornaram as queridinhas do público e tem uma energia alegre, cantante. Eu amo.

Aí teve a chegada do Funk e dos vocais brasileiros trouxe uma nova cara para as nossas pistas também, tá fazendo muito DJ abrir a mente e se permitir pouco a pouco a essa nova possibilidade. Vejo de forma positiva que tem casas no Brasil levantando a bandeira da pluralidade de públicos, isso permite que a gente não mais se segregue, eu amo poder passear e tocar para diversos públicos e fico mais feliz ainda quando os vejo em um ambiente junto e misturado. Representa muito para mim e o quanto temos que derrubar os muros da segregação, se divertir com respeito e igualdade. 

Ponto negativo acredito que a falta de noção que as pessoas criaram em relação aos vips. Exigem dos produtores de festa uma super produção, fazem críticas em rede social, mas entram vip e sequer divulgam o flyer da festa em seus perfis ou convocam os amigos para as festas que eles vão!  Todo mundo tem deixado de ganhar com situações como essa, inclusive nós.

Revolution Party – Beach Club.

Recentemente você fez a sua primeira apresentação em uma gig internacional. Como foi tocar no Chile?

Toquei no Chile e foi incrível passar por lá. Os chilenos são muito enérgicos, calorosos e tem o Tribal Brasileiro como principal referência!

Minha última passagem por lá foi em Fevereiro deste ano e me apresentei no maior Festival gay em Vinã Del Mar promovido pela Blaxx Box e Club Divino (um dos maiores clubes da América Latina) em parceria com selos imponentes daqui do Brasil como Joy, Victoria Haus e After do Baez. Vivi cinco dias intensos conhecendo o país, fazendo amigos e apreciando a culinária e a repercussão da minha apresentação lá foi maravilhosa e até hoje recebo mensagens e marcações do povo de lá com trechos do meu set. Amo estar no Chile, tínhamos um retorno marcado em Maio, mas espero que toda essa quarentena passe logo para que possamos matar a saudade.

Fale um pouco pra gente da sua colaboração no Original Mix, “Jungle Beat”, com o DJ Bruno Knauer. Você pensa em fazer algum curso de produção?

Eu não fiz curso de produção musical, mas eu consigo executar minhas ideias através  de mashups e edições. Este conhecimento que me levou a colaborar com o Bruno Knauer!

O Bruno sempre teve uma identidade muito melódica com as músicas dele, e com a Jungle Beat ele quis apostar em uma sonoridade mais tribal, e tal… ele estava produzindo esta Original e quis me enviar para eu poder opinar. Daí eu comecei a pontuar algumas coisas sobre a música, e aí ele sugeriu de a gente se encontrar, aqui mesmo em Curitiba, já que a gente mora por aqui, e finalizar a música juntos. Então a parceria surgiu desta forma.

Mesclamos elementos do mainstream, para não deixar a música tão conceito. Aí ela tem essa mistura de um break melódico, que é a essência do Bruno, e a minha identidade mais percussiva. A música ficou durante 6 semanas no ranking do Guia Gay de São Paulo, como uma das mais tocadas.

A produção com certeza é um passo que darei na minha carreira!

E atualmente, o que você tem produzido? Pretende lançar algo especial e autoral neste período de quarentena? Tem alguma colaboração importante para ser lançada nos próximos meses?

Eu tenho estudado Espanhol, Marketing e trabalho diariamente na pesquisa musical e na edição e elaboração de novas misturas para quando voltarmos à ativa ter o máximo de novidades para mostrar para o nosso público! Logo quando entramos em Quarentena eu lancei o Stay Home que é um SET da minha última apresentação na Verdant aqui em Curitiba e que apelidei carinhosamente com esse nome para marcar esse momento de reclusão que estamos vivendo, contendo muitos clássicos e hits para tornar esses dias mais alegres e divertidos para as pessoas. E vem um novo projeto aí com outros DJs mas por hora é segredo. Só adianto que vamos chocar a sociedade, AHAHA…

Sobre ser mulher dentro da cena LGBTQIA+. Fale como você enxerga a participação da mulheres dentro da cena. O que poderia mudar? E o que poderia ser mais exaltado por todos?

Nossa participação na cena é imprescindível e necessária!

Como mulher e nordestina, que tá na cena há quase 16 anos sendo 10 como DJ, eu afirmo que a cena feminina vem caminhando a passos largos e eu me orgulho muito de ter caminhado nesse movimento de ascensão da mulher no mercado! Conquistamos um espaço mais que merecido, com muita luta e propriedade do que estamos fazendo, do nosso lado temos o público que valida o nosso trabalho, enche as nossas caixas de mensagens e feed com feedbacks incríveis e os nossos contratantes e residências que veem como imprescindível a nossa presença nos lines e temos a tranquilidade de conduzir nosso trabalho do jeito que acreditamos. Quando me refiro ao fato de ser Nordestina, é porque há um tempo, sofríamos muito preconceito porque o restante da cena diziam que tocávamos “panela”, se referindo a uma sonoridade pejorativa.

Avalon Club, com Laurize, Larissa Rodrigues, Bárbara Bombom, Cacá Werneck e Lizi Soares.

Você tem alguns anos de estrada já. Como foi sua trajetória neste últimos anos para se manter firme? Você fez algumas adaptações para se enquadrar no mercado? 

São 10 anos de carreira! Falando dos últimos cinco anos que marcam a minha mudança de Salvador para Curitiba, para mim foi como começar do zero e muito recompensador porque minha vida virou uma loucura, no bom sentido, é claro! 

Uma trajetória de adaptação a uma nova cidade, de pensar em estratégias para o meu trabalho chegar em lugares que ainda não tinha ido, reposicionamento de mercado, imagem, tudo! Porque quando você atua como profissional local você se movimenta na cena de uma forma, mas quando o objetivo é atuar nacionalmente, internacionalmente, é necessário posicionamento, estratégia, com isso o volume de trabalho praticamente triplica. Minha mudança de cidade foi totalmente planejada. Paralelo a isso, eu ainda administrei durante 3 anos e 6 meses uma jornada dupla trabalhando como Contadora durante a semana aqui em Curitiba e de sexta a domingo, viajando por até duas cidades diferentes tocando. Muitas vezes fazia a mala na sexta feira e nela já tinha a roupa de trabalhar na segunda, aí já saía direto do aeroporto para a empresa. Depois dizem que baiano é preguiçoso! AHAHAHA…

A música promove uma série de adaptações na vida e na mente da gente e nós DJs temos que ir além, trazer tendências e se adequar a elas é muito importante para que a gente sempre esteja em conexão com o nosso público e atender as suas expectativas, mais ainda é fazer tudo isso sendo real, sem perder a nossa essência e identidade.

Van Müller no Festival de Verão de Salvador. Foto divulgação.

Qual a sua maior dificuldade em ser uma DJ mulher dentro da cena LGBTQIA+? 

Eu acredito que a minha maior dificuldade foi quando éramos minorias e os convites de GIG aconteciam para tocar em festas destinadas para meninas, onde a sonoridade é diferente e a dinâmica da noite também. Atualmente temos um ambiente aberto e o público cada dia mais tem cobrado dos contratantes a nossa presença por tudo que nos tornamos, levamos qualidade, inovação, musicalidade, feeling, imagem e conceito visual para os palcos. De um jeito ou de outro, estamos sempre cortando um dobrado para levar novidade para as pessoas e surpreender…

Estamos passando por um período bem complicado, por conta da Covid-19. Qual o impacto que teve na sua vida e o que você está fazendo para driblar toda essa situação?

É um momento difícil, pegou todo mundo de surpresa principalmente pelo impacto financeiro, mas penso que trouxe à tona questões que estávamos em falta no dia a dia que é cuidar do nosso bem maior que é a saúde, fortalecer a espiritualidade, exercer empatia e solidariedade em relação ao outro.

Confesso que durante a semana tá tudo sob controle pela rotina de estudos e pesquisa musical. Quando chega no final de semana sinto uma ansiedade e agitação descontrolada porque é o momento que estava na função aeroporto, ir ao salão fazer cabelo, make, toda a preparação para as apresentações, eu vinha num ritmo de 12 apresentações por mês então desacelerar isso assim tão de repente tá mexendo muito comigo.

Qual mensagem você pode deixar para seus fãs e os leitores da DJane Mag Brasil?

Eu só tenho a agradecer aos meus fãs pelo carinho e apoio com meu trabalho! Cada mensagem que recebo faz tudo ter sentido.

Aos leitores, não deixem de apoiar os artistas que vocês gostam. Compartilhem nos grupos, ouçam os sets e músicas, comentem, mandem mensagens. Isso para nós significa muito.

Fiquem em casa, tenham cuidado e protejam-se com responsabilidade. Beijos com carinho.

Diego Aganetti, mineiro, vivendo em São Paulo, que chegou nos seus 30 anos de idade e teve diversas experiências nos grandes eventos da cena LGBTQIA+. Atualmente voltou para o mercado de produção de eventos, com sua nova marca SIGN.