Laurize fala com exclusividade sobre sua trajetória de mais de 18 anos de carreira

Com mais de 18 anos de carreira a DJ Laurize leva o seu Tribal House com uma personalidade musical fortíssima por onde ela passa.

Diretamente de Goiânia, uma das regiões que têm mais crescido na cena eletrônica brasileira, Laurize começava a sua carreira de DJ profissional há mais de 18 anos atrás.

Hoje em dia, a DJane que já rodou por todo o país, recentemente teve a sua primeira tour internacional mostrando que o nosso Tribal House é mesmo a referência mundial do momento.

E tivemos um bate-papo super especial com este grande talento da cena LGBTQIA+ brasileira. Confira:

Sabemos que você sempre foi muito ligada a música, poderia falar um pouco sobre o contato que você teve com a música durante a sua infância e sua adolescência? 

Desde que me entendo por gente (risos), a música faz parte da minha vida! Já colecionava vinis e cds na infância e adolescência. Sempre gostei muito de ouvir MPB e Rock. Quando a Dance Music surgiu foi amor à primeira vista. Depois vieram as raves, trances e por fim cheguei ao Tribal House onde estou “ancorada” há anos! A música é parte fundamental em minha vida. É ela que me faz sorrir, que me acalma, que me move!

Quais foram os principais starts que a levou para o caminho de seguir uma carreira profissional de DJ? 

Por gostar demais de música, sempre gostei de festas também. No final dos anos 90 e começo dos anos 2000 surgiram as raves e não perdia uma. A partir daí comecei a prestar atenção nos DJs, de como eles levavam a pista, como era mágico aquele controle e ao mesmo tempo, fazer a diversão das pessoas. Em Goiânia tinham dois clubs eletrônicos e comecei a frequentar toda semana. Fui observando melhor e cada vez mais sentindo a vontade de estar na cabine e não na pista. Era fabuloso ver as apresentações de DJs como Laurent Garnier, Mau Mau, Anderson Noise e Marky. Além claro, das referências da nossa cena tribal que pude me inspirar como Mauro Borges, Ana Paula, Pacheco, Cecin e por aí vai… 

Quando você iniciou sua carreira profissional não existia tantas festas como hoje, principalmente fora do sudeste brasileiro.

Como você lidava com essa escassez de eventos da cena?

Se não tinha eventos, porque não fazer?(risos). Foi promovendo festas particulares com amigos em chácaras e espaços de eventos que comecei a pegar o gosto por ser DJ. Tinham também os clubs e bares que me chamavam para tocar. 

E pensando em cena feminina dentro da cena gay, pode falar um pouco também sobre este contexto?

Sobre a cena feminina foi bem difícil no começo, pois as festas de eletrônico eram dominadas praticamente pelos DJs homens. Quase não se via uma DJ no line up de clubs, muito menos de grandes eventos. Porém, graças a Deus, tudo foi mudando e hoje temos um cenário em que podemos dizer que as mulheres estão ali 50/50. Isso quando não tem um line 100% feminino né!? 

Hoje você é DJ residente em dois selos importantes da cena LGBTQIA+ brasileira, a Ávalon (Goiânia) que tem mostrado um papel importante na representatividade feminina da cena, e a Bubu Lounge (SP), que já faz parte da história. Fale um pouquinho de como foi que rolou o convite para representá-los e como é a sua relação com os clubs e o público de cada um.

O grupo Avalon chegou a Goiânia em 2016 já com projeto do club e fazendo festas para mostrar ao que veio. Já na primeira festa antes da abertura do club em 2017, recebi o convite para ser residente e não hesitei em aceitar, pois me encantou a forma como eles trataram o entretenimento em nossa cidade. Minha relação com o club e a proprietária Bárbara Bombom é a melhor possível. Ajudo em tudo que posso, inclusive sou responsável por toda parte de divulgação da mesma. O público de Goiânia é maravilhoso demais e exigente também. E já faz alguns anos que tenho essa relação de amor com esse público que sempre me apoia. 


A residência da Bubu veio em 2018 quando eles mudaram algumas coisas e chamaram alguns DJs para serem residentes bimestrais. Fiquei muito feliz com o convite do amigo Rovi Rodrigues e sempre procurei fazer sets do jeito que o público gosta. Aliás, vale salientar que eles me receberam muuuuito bem. Só tenho lembranças de grandes noites por lá. A parceria está bem forte, inclusive quando tudo voltar, teremos mais novidades. Aguardem!

Você já tocou em diversas gigs internacionais e também em grandes festivais da cena LGBTQIA+ brasileira. Fale um pouco sobre essas duas experiências que você vinha vivenciando neste momento de sua carreira.

Posso dizer que sou uma profissional realizada na carreira. Tive oportunidade de tocar em grandes eventos e festivais, além de todos os clubs que pude levar meu trabalho. Ano passado tive a realização de um grande sonho que era de poder tocar em outro país. Em Novembro de 2019 passei pela França e Suíça. E este ano, um final de semana antes do encerramento das atividades dos eventos por causa da pandemia, estive no Chile.

É muito gratificante, por exemplo, você estar confirmada no festival Joy Búzios em 2021, completando 4 anos consecutivos, desde a primeira edição. Isso não tem cachê que pague, pois é sinal de que o público e os produtores confiam muito no meu trabalho. Se Deus quiser e ele há de querer, quando tudo for retomado, ainda terei oportunidade de tocar em outros tantos locais e festas maravilhosas. 

Hoje em dia, além das baladas tradicionais da cena, você toca em vários formatos de festas diferentes, como afters, pool parties, clubs… Como é para você tocar nestes nichos tão diferentes da cena LGBTQIA+? Você consegue manter sua identidade musical? 

Já faz algum tempo que as festas eram separadas por estilo e com isso, nós djs, preparávamos set´s diferentes para tanto. O set de pool party jamais poderia ser igual ao de um AfterHours ou de uma noite no club ou festa. As coisas foram mudando e com o decorrer dos anos, fora o set de after, não há muita diferenciação. Claro que tudo vai do feeling do DJ em entender a pista e saber o que ela pede. Particularmente gosto de fazer set´s fervidos com pegadas mais fortes, a não ser claro, que esteja tocando no começo da noite ou da festa. Acho que consigo imprimir uma identidade musical sempre, já que são anos de estudo e também tem aquela parte de conseguir definir o que dá para tocar em qualquer lugar. 

Falando agora sobre o seu papel de representatividade na cena LGBTQIA+. Você já passou alguma situação que te marcou?

Sim, claro. Há sempre momentos marcantes! Vou citar dois que são da mesma festa em momentos e situações diferentes, porém ficaram gravados na memória. Fui escalada para tocar after do aniversário da Festa da Lili que aconteceria no domingo pela manhã. A festa principal foi no sábado a noite. No sábado à tarde, toquei em uma festa private em um barco no lago de Brasília. Tinha tocado na sexta e já estava com poucas horas de sono. Fui para a festa principal para curtir como os amigos e de lá seguiríamos para o after. Passei a noite toda tranquila, porém já cansada, consumi muitos energéticos e já no final da festa, senti um mal estar muito grande. Parecia que minha pressão havia caído. Veio tão forte esse mal estar que tive que sentar. E ali fiquei, passando mal e relutando para ir a enfermaria. Foi quando um amigo saiu escondido e buscou uma bombeira, conhecida minha inclusive, que foi lá e já me levou para a enfermaria. Chegando lá ficou constatado que minha pressão havia elevado devido ao consumo exagerado de energético. Tomei remédio e fiquei aguardando melhorar para sair e ir para o After. Cheguei para tocar bastante debilitada, sem força. Porém esforcei ao máximo que podia, pois havia preparado um set com muito carinho, visto que é uma festa muito importante e que as pessoas esperam muito do DJ. Só Deus e meus amigos mais próximos sabiam da real situação e muitos ficaram grudados na cabine caso me sentisse mal novamente. Em suma: algumas pessoas que me viram com a bombeira indo para a enfermaria, disseram que passei mal devido ao uso de drogas. Esse “boato” rolou ainda por meses e pensei: caramba, como as pessoas julgam sem ao menos saber o que aconteceu né? A parte boa da história é que até hoje muitos lembram do meu set no after e ao final da minha apresentação não contive as lágrimas. Chorei por ter superado uma situação complicada, por conseguir fazer o set inteiro e finalmente ter a presença de Deus e amigos que me ajudaram o tempo todo. Inesquecível!

A cena feminina dentro do meio LGBTQIA+ vem crescendo cada dia mais e tendo muito mais destaques nos últimos anos. Fale um pouco sobre essa nova realidade.

Graças a Deus né?(risos) Ultimamente há tantas mulheres talentosas na nossa cena que dá até gosto! Antigamente os lines eram formados praticamente por homens, com uma mulher apenas. Hoje em dia, já temos grandes festas com metade do line com djs mulheres e o melhor, festas com tema e line exclusivo de mulheres. Sensacional não é mesmo? Tomara que a tendência seja a de crescer mais e mais e que as mulheres cheguem com tudo mostrando que o tal sexo frágil tá longe de existir. Pelo menos na nossa cena!

Agora estamos passando por uma pandemia, por conta da Covid-19. Como foi pra você perceber que essa situação acabaria com toda a sua agenda de uma vez só? 

Essa é uma situação tão nova e tão atípica que confesso a você que não estava preparada (acho que ninguém). Mesmo quando já começavam os rumores de paralisação. Cumpri a agenda normal de carnaval e pós carnaval, viajei ao Chile no primeiro final de semana de Março e no segundo foram minhas últimas apresentações. Até mesmo na última data, 15 de Março de 2020, domingo, na edição After da festa Woman’s Got The Power na Avalon em Goiânia, na minha cabeça seria um tempo de pausa curto e que muito em breve estaria de volta. Confesso que o primeiro mês serviu muito para aquele descanso necessário, que a gente sempre adia. Estava em uma correria frenética todo final de semana, cumprindo agenda quase que de sexta a domingo. Estava exausta! Aproveitei mesmo para descansar e colocar o sono em dia. Porém a partir do segundo mês, a ficha caiu! Bateu aquele medo e a incerteza, já que a agenda do primeiro semestre estava toda cancelada e a do segundo ninguém sabia se daria para cumprir. E até o momento ninguém sabe. Já passamos da metade do ano e pelo menos para o segmento do entretenimento e festas não há previsão de volta. Tenso! O que tem confortado são as lives. Já participei de 4 que foram ótimas e que serviu inclusive para pessoas que não conheciam o meu trabalho, poder curtir meus set’s.

Inclusive estou investindo bastante nas mídias sociais, utilizando o meu canal no Youtube que estava esquecido para subir as lives e set´s que estavam disponíveis apenas no Soundcloud. Logo deve aparecer um novo set(áudio) e ainda vejo a possibilidade de lançar um audiovisual só meu. É o que estamos conseguindo fazer no momento. Espero muito e confio em Deus que tudo isso vai passar e que possamos voltar a normalidade. Claro que a retomada não será fácil. Já sabemos que as festas e clubs terão que se adaptar a uma nova realidade, porém confio na ciência e que logo logo, teremos uma vacina disponível para nos livrarmos desse vírus que assolou o mundo de uma forma tão devastadora. 

Aproveito a oportunidade para agradecer a todos que estão me apoiando nesses últimos meses. Tenho recebido muito carinho de amigos mais próximos e do público também. Tem sido muito gratificante e reconfortável receber todo esse amor. Só assim tenho conseguido passar por esse desafio de 4 meses sem trabalho, tendo que cuidar da parte mental e estrutural. Que Nosso Bom Deus possa abençoar a todos nós e que com a graça Dele, muito em breve estaremos juntos presencialmente para aquele abraço e beijo que tanto aguardamos. Tenho fé!

E é isso! Confira o último set promo da DJ Laurize:

Diego Aganetti, mineiro, vivendo em São Paulo, que chegou nos seus 30 anos de idade e teve diversas experiências nos grandes eventos da cena LGBTQIA+. Atualmente voltou para o mercado de produção de eventos, com sua nova marca SIGN.